sábado, 17 de maio de 2008

Desconstrução do Comum


A cena pernambucana pôde prestigiar na última quarta-feira através do Palco Giratório, movimento conduzido pelo SESC que promove o intercambio das práticas das artes cênicas no país, o espetáculo O Porco. Aclamado pela crítica e pelo público a encenação propõe uma relação intimista com a platéia e um teatro livre de clichês e vícios.
A obra original Strategie pour deux jambons, escrito em 1978 por Raymond Cousse foi publicado como romance e teve sua adaptação para o teatro no ano seguinte pelo próprio autor assim como a encenação da obra. O sucesso foi tamanho em toda Europa que logo vieram montagens em outros países. Aqui no Brasil o espetáculo é fruto de um processo de pesquisa no Lince- Laboratório do Ator, do departamento de Artes Cênicas da USP, coordenado por Antônio Januzelli que é diretor do espetáculo.
A peça revela as lembranças, os sonhos, os desejos de um porco a caminho do abate, que não é nada mais do que o reflexo do homem condicionado em seu espaço. Utilizando de uma simplicidade cênica o cenário é composto por um quadrado vazio preenchido apenas pela figura do ator, um balde de alumínio, uma porta e um tijolo pendurado em um lado da cena. A iluminação também não foi explorada em suas variantes e o figurino segue essa linha simplória, constituído apenas por um paletó velho e uma bermuda rasgada. O foco dessa montagem é o ator, que para colocar seu corpo de forma sensível no espaço cênico, mergulhou em um processo de trabalho de quatro anos. A interpretação foge da imitação de um porco mas antes preocupa-se em tornar desnudo o corpo do ator, que segundo Januzelli, é cheio de vícios e clichês trazidos do cotidiano. Para ele é preciso efetuar uma limpeza das máscaras musculares, retirar o que está mecanizado. A cena foi sendo revelada através do processo de trabalho a partir da idéia do fazer teatral como exercício de vida. E afirma o diretor com a provação de Henrique Schefer, ator do espetáculo: “ainda não terminou”.
Fica facilmente estampada a relação ética entre Januzelli e Schafer, assim como a relação de cumplicidade e confiança estabelecida entre ambos, elementos fundamentais quando se diz respeito à vida teatral. Porém isso é algo que em uma época fast-food, em que se falta tempo para se fazer tudo, que a velocidade é comandada segundo o capital, é surpreendente o tempo que estes homens se dedicaram ao exercício teatral porque tais profissionais comprometidos estão escassos.
Em contraposição a essa maneira de conceber teatro nos deparamos com atores e mercado puramente comerciais, que não estão preocupados em engrandecer o teatro, mas usar este como escada, um meio de satisfazer seus desejos narcisistas sem qualquer comprometimento artístico, cuidado estético, ou levar ao público material de qualidade, formar uma platéia. Outra manifestação desse falso ator é a sua desconcentração, sua irresponsabilidade e brincadeiras durante o processo de trabalho. Tais escarnecedores da arte deveriam pensar seriamente em outro destino profissional, ser Big Brother ou modelo ou ainda, colocar não apenas uma melancia na cabeça, mas toda uma quitanda de frutas e verduras e depois pôr-se a desfilar pelas ruas. Definitivamente que estes caiam em si e DEIXEM DE PROSTITUIR A ARTE! Entro em questionamento com resposta definitiva com relação a esse aspecto: o teatro não precisa desses desatores, pois estes provocam um desfavor a essa arte e a população, já que é um trabalho que presta favor social. Se nós não acreditarmos com tudo o que somos no ofício que exercemos e não tratarmos com seriedade e responsabilidade necessária, nós que nos dizemos filhos de Dionísio. Quem mais vai fazer isso?
O teatro clama por atores, cenógrafos, diretores, maquiadores, contra-regras, entre outros profissionais que fazem essa arte acontecer, enfim, pessoas apaixonadas pelo seu trabalho, comprometidas, responsáveis, que trate a arte com o merecido respeito. “A maioria das pessoas não tem necessidade de nós”, como fala na tão usada carta de Eugênio Barba direcionada ao “ator D”. Torna-se fundamental cairmos na reflexão e nos perguntarmos se realmente merecemos o teatro. Se queremos e podemos fazê-lo. Seja através da comédia, da tragédia, do realismo ou do épico ou ainda da hibridização performática que define o palco contemporâneo, o importante é preocupar-se com a qualidade, é o comprometimento com o público, possuir a fé de uma criança e o espírito revolucionário de um adolescente para fazer com que essa arte jamais desfaleça. É preciso defendê-la com identidade e com garra!

Vinicius Vieira

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